O artesanato da região Centro-Oeste reúne tradições de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Entre os exemplos com registro formal estão a cerâmica Kadiwéu, produzida na Serra da Bodoquena (MS), e a viola de cocho, instrumento artesanal registrado pelo IPHAN no Livro dos Saberes em 2005, presente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Para compreender uma peça dessa região, é preciso considerar três elementos: o povo ou comunidade que a produz, os materiais disponíveis no território e a função que ela cumpre — ritual, doméstica ou econômica. As tradições indígenas, por exemplo, não obedecem às fronteiras estaduais: a cerâmica Kadiwéu é produzida por um povo que historicamente transitou entre o que hoje é o Mato Grosso do Sul e o Paraguai.
Principais Destaques
- Bonecas Karajá Ritxòkò: cerâmica reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2012, produzida exclusivamente por mulheres do povo Karajá.
- Cerâmica Kadiwéu: produzida por mulheres na Serra da Bodoquena (MS), com grafismos geométricos em urucum e jenipapo — principal fonte de renda da comunidade.
- Viola de cocho: instrumento escavado em madeira, registrado pelo IPHAN em 2005, associado ao cururu e ao siriri em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
- Artesanato em capim do brejo: tradição de Serranópolis (GO), onde o capim é usado desde gerações na cobertura de telhados e na confecção de balaios e cestos.
- Entalhe de madeira no Pantanal: esculturas de animais locais produzidas por artesãos ribeirinhos e quilombolas.
Influências e Origens
Influências Indígenas
A presença indígena é a influência mais documentada no artesanato do Centro-Oeste. As bonecas Karajá Ritxòkò são o exemplo mais reconhecido institucionalmente: reconhecidas pelo IPHAN em 2012 como Patrimônio Cultural Imaterial, são produzidas exclusivamente por mulheres e inscritas em dois Livros de Registro — o dos Saberes e o das Formas de Expressão. Confeccionadas em cerâmica, são pintadas com grafismos que representam a pintura corporal Karajá, ciclos rituais e cenas do cotidiano, e funcionam como instrumento de educação das crianças dentro da aldeia.
A cerâmica Kadiwéu, produzida por mulheres na Reserva Indígena Kadiwéu, na Serra da Bodoquena (MS), distingue-se pelos padrões geométricos abstratos em tons pastéis. Os pigmentos são obtidos de materiais naturais: urucum para o vermelho e jenipapo para o preto — os mesmos usados na pintura corporal do povo. A matéria-prima é extraída de barreiros específicos que fornecem argila de textura e coloração adequadas para uma cerâmica durável.
Influências dos Colonizadores e da Miscigenação
A colonização portuguesa e espanhola introduziu técnicas de tecelagem e olaria que se mesclaram às práticas locais. Tapetes e redes produzidos por mulheres ribeirinhas, rendas (como o ñanduti) e a tecelagem de algodão e lã são referenciados em documentos do IPHAN como parte dessa camada cultural. As fibras naturais abundantes no Pantanal — salsaparrilha, taboca, taquara, urumbumba e taboa — foram incorporadas por povos indígenas e comunidades ribeirinhas em suas produções, tornando difícil separar a origem de cada técnica sem uma análise por comunidade específica.
A autoria e a comunidade de origem são fundamentais para compreender o significado de cada peça — e para garantir que a compra beneficie diretamente o produtor. Valorizar esses artesãos contribui para a continuidade dos saberes. Conheça também 10 Curiosidades sobre o Artesanato da Região Norte.
Principais Técnicas e Materiais
As técnicas e matérias-primas variam conforme o bioma e a comunidade produtora. No Pantanal predominam couro de peixe, fibra de taboa, osso e arenito. No Cerrado, o barro, a madeira, as sementes e as fibras vegetais como buriti e taquara são os materiais centrais. No meio urbano — especialmente no Distrito Federal — o artesanato com materiais reciclados (metal, vidro, papel e tecido) ganhou espaço nas últimas décadas.
| Técnica | Materiais | Estado | Exemplo de peça |
| Cerâmica utilitária e decorativa | Barro | Goiás | Potes, vasos, moringas |
| Cerâmica Kadiwéu | Argila, urucum, jenipapo | Mato Grosso do Sul | Peixes, discos, esculturas figurativas |
| Bordado Cuiabano / bordado livre | Tecidos | Mato Grosso | Almofadas, toalhas, artigos decorativos |
| Viola de cocho (IPHAN, 2005) | Madeira nativa (sarã, pau de abóbora, urucuana) | MT e MS | Instrumento musical artesanal |
| Artesanato do Pantanal | Couro de peixe, fibra de taboa, osso, arenito | Mato Grosso do Sul | Esculturas, adornos, utensílios |
| Artesanato com materiais reciclados | Metal, vidro, papel, plástico, tecido | Distrito Federal | Objetos decorativos |
Artesanato da Região Centro-Oeste por Estado
Cada estado da região desenvolveu tradições artesanais a partir do bioma local, das comunidades que ali vivem e do histórico de contato entre povos. Abaixo, os destaques documentados de cada unidade.
Mato Grosso
A cerâmica é a expressão mais reconhecida no estado. As bonecas Karajá Ritxòkò — produzidas por mulheres do povo Karajá, que vive às margens do Rio Araguaia, nos estados de Goiás e Mato Grosso — receberam do IPHAN o título de Patrimônio Cultural Imaterial em 2012, inscritas no Livro dos Saberes e no Livro das Formas de Expressão. Cada boneca passa por cinco etapas: extração e preparo do barro, modelagem, queima, pintura e acabamento — processo controlado inteiramente pelas mulheres da aldeia e transmitido de mãe para filha.
O bordado livre das bordadeiras da Chapada dos Guimarães e a viola de cocho — registrada no Livro dos Saberes do IPHAN em 2005 e fabricada artesanalmente com madeiras nativas como sarã de leite, sarã d’água, pau de abóbora, embiriçu e urucuana — completam o quadro do estado.
Mato Grosso do Sul
Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígena do Brasil, atrás apenas da Amazônia, segundo dados do IPHAN — o que explica a centralidade das tradições indígenas no artesanato local. A cerâmica Kadiwéu é a peça mais documentada: produzida exclusivamente por mulheres na Reserva Indígena Kadiwéu (Serra da Bodoquena), representa uma das principais fontes de renda da comunidade. Uma parceria entre o governo estadual, a UFMS e a Universidade de Manitoba (Canadá) resultou na criação da Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (AMAK), que apoia a comercialização online das peças.
No Pantanal sul-mato-grossense, a abundância de matérias-primas como arenito, osso, couro e fibras vegetais (taboa, taquara, urumbumba) sustenta uma produção artesanal diversificada, além da viola de cocho, compartilhada com o Mato Grosso.
Goiás
O artesanato em capim do brejo é a tradição mais característica do estado. Em Serranópolis, município no sul de Goiás a 380 km de Goiânia, o capim é utilizado há gerações na cobertura de telhados e na confecção de balaios e cestos. Em 2021, um projeto de lei aprovado em primeira votação na Assembleia Legislativa de Goiás propôs o reconhecimento formal dessa prática como patrimônio cultural goiano.
O bordado à mão — ofício passado de mãe para filha — é outra marca do estado, presente hoje em artigos decorativos, almofadas e artigos de vestuário. A cerâmica goiana, com potes, vasos, moringas e namoradeiras em barro, completa o conjunto. O estado também é território de ocorrência do capim dourado, matéria-prima cujo artesanato foi reconhecido pela Lei Federal 15.005/2024 como manifestação da cultura nacional — embora o centro de referência dessa prática seja o Jalapão, no Tocantins vizinho.
Distrito Federal
No DF, o artesanato em flores secas e o artesanato em capim colonião são as tradições mais citadas. As flores — coletadas, secas e pintadas pelos artesãos — são usadas em arranjos decorativos e bijuterias. O capim colonião, transformado em cestos, porta-retratos e móbiles, tornou-se um símbolo do artesanato local nas últimas décadas. Por ser uma cidade planejada e com grande fluxo migratório, o DF também concentra artesãos de outras regiões, criando uma produção eclética que mistura técnicas do Norte, Nordeste e Sudeste com materiais do cerrado local.
| Estado | Destaque | Registro / fonte |
| Mato Grosso | Bonecas Karajá Ritxòkò, viola de cocho, bordado livre | IPHAN (2005 e 2012) |
| Mato Grosso do Sul | Cerâmica Kadiwéu, artesanato pantaneiro em fibras e osso | IPHAN / UFMS / AMAK |
| Goiás | Capim do brejo (Serranópolis), bordado à mão, cerâmica | Assembleia Legislativa GO (PL 5980/21) |
| Distrito Federal | Flores secas, capim colonião | — |
Como Usar o Artesanato do Centro-Oeste na Decoração
Peças do Centro-Oeste funcionam bem em ambientes que buscam referência cultural concreta — não apenas estética genérica. Algumas aplicações diretas:
- Cerâmica Kadiwéu: os padrões geométricos em tons pastéis funcionam como peças de centro em salas minimalistas, sem competir com outros elementos decorativos.
- Cestaria de fibras (buriti, taboa, taquara): cestos e bandejas com acabamento natural se integram a ambientes com paletas terrosas e mobiliário em madeira.
- Esculturas em madeira do Pantanal: representações de animais locais (jacaré, onça, arara) funcionam como ponto focal em prateleiras e nichos.
- Bordados goianos: almofadas e caminhos de mesa bordados à mão adicionam textura sem precisar de moldura ou suporte.
Conclusão
O artesanato do Centro-Oeste não é um bloco homogêneo: é um conjunto de tradições específicas, ligadas a povos, territórios e materiais concretos. A cerâmica Kadiwéu vem de mulheres de uma reserva específica no MS. As bonecas Ritxòkò são produzidas por mulheres Karajá às margens do Araguaia. A viola de cocho nasce nas mãos de mestres cururueiros da Baixada Cuiabana. Conhecer essa origem é o que transforma uma peça decorativa em um objeto com história verificável — e é o que diferencia o consumo consciente do artesanato regional da simples compra de souvenir.
Para completar sua leitura sobre o artesanato brasileiro, conheça o artesanato da Região Sul, onde a influência de colonizadores alemães e italianos se mistura à tradição gaúcha.
Perguntas frequentes
Qual artesanato do Centro-Oeste tem registro oficial no IPHAN?
Dois bens têm registro federal confirmado: as bonecas Karajá Ritxòkò (inscritas em 2012 no Livro dos Saberes e no Livro das Formas de Expressão) e o Modo de Fazer Viola de Cocho (inscrito em 2005 no Livro dos Saberes). Ambos são produzidos em Mato Grosso; a viola de cocho também em Mato Grosso do Sul.
O que diferencia a cerâmica Kadiwéu de outras cerâmicas indígenas?
Os padrões geométricos abstratos e assimétricos, pintados em tons pastéis com pigmentos naturais (urucum e jenipapo), são a marca visual das peças Kadiwéu. A produção é exclusivamente feminina e a matéria-prima — argila extraída de barreiros específicos na Serra da Bodoquena — confere uma textura e resistência características.
Onde comprar artesanato autêntico do Centro-Oeste?
A compra direta em associações de artesãos garante maior autenticidade e retorno financeiro para o produtor. A Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (AMAK), por exemplo, comercializa cerâmicas online. Feiras como o Salão do Artesanato, realizado em Brasília, e os mercados artesanais de Cuiabá e Goiânia também concentram produtores das principais tradições regionais.
Qual é a tradição artesanal mais antiga documentada na região?
As bonecas Ritxòkò são descritas pelo IPHAN como produzidas pelo povo Karajá “desde tempos imemoriais”, com registros de colecionadores e viajantes desde o século XIX. A cerâmica Kadiwéu também tem documentação que remonta ao século XIX, estudada em dissertação da USP que analisa o percurso da produção do século XIX ao XXI.
Como o artesanato do Centro-Oeste pode ser integrado à decoração?
Cerâmicas Kadiwéu funcionam como peças de centro em ambientes minimalistas; cestaria de buriti e taboa complementa paletas terrosas; esculturas em madeira pantaneira criam pontos focais em nichos. A regra geral: escolher uma peça de procedência conhecida e deixá-la em evidência — o artesanato regional perde sentido quando tratado como fundo de prateleira.
Fontes
- IPHAN – Modo de Fazer Viola de Cocho
- FUNAI – Bonecas Ritxoko
- Assembleia Legislativa de Goiás – PL 5980/21 (Capim do Brejo)
- Governo de MS – Projeto Cerâmica Kadiwéu / AMAK
- IPHAN – Relatório Patrimônio Imaterial Mato Grosso do Sul
- UFPB – Patrimônio Cultural e Arte Indígena em MS: identidade e desafios do povo Kadiwéu

James Silva é fundador e editor do M&A Arts, blog de referência em artesanato e decoração no Brasil. Com formação em Administração (Instituto Paula Souza) e Belas Artes (Faculdade Cruzeiro do Sul), desenvolve conteúdos que combinam criatividade, técnica e praticidade — do macramê à resina, do biscuit à reciclagem criativa. Seu trabalho é voltado para quem quer aprender, criar e se inspirar no universo Diy.

